ANACLETO, UM HOMEM SILENCIOSO
Anacleto tinha as pernas curtas, desproporcionais ao tronco robusto, atlético, que lhe dava um ar meio disconforme, o que não lhe retirava o ar de generosidade e simpatia.
Era manso de coração. Falava baixo, quase murmurando, como se não quisesse incomodar. Tímidez que ocultava um mar revolto interior, alimentado pelos livros, razão maior de sua vida.
De hábitos monacais, emocionava-se com as leituras de monges, clausuras, castidades, embora não entendesse com clareza, como era possível um ser humano enclausurar-se, distanciar-se da vida, apagar todos os prazeres que a natureza dotara os seres vivos, e viver em solidão, ardendo por um mundo tão distante e desconhecido.
Essa efervescência interior, monólogo interminável, consumia-o em suas noites de insônia. Olhos arregalados na escuridão do quarto, imaginava aqueles monges em celas frias, nuas, desprovidas de qualquer conforto, e viajava imaginando se aquela solidão alimentava alguma fé estranha, em algo estranho, um deus poderoso que o arrebataria para a abundância prometida de algum paraíso desconhecido da imaginação humana.
Anacleto era jovem, homem de trinta anos, boas feições, apesar do corpo em desequilibrio geométrico de proporções. Inteligente suficiente, para ser considerado culto, por força de muitas leituras, dos melhores autores que a humanidade até então havia produzido.
Se fosse defini-lo, diria que o melhor adjetivo seria "silencioso": um homem silencioso, de poucas falas, além do cumprimento formal, quando necessário.
Não tinha amigos, os poucos que fizera ao longo da sua restrita vida social, alguns falecidos, outros cumprindo sua sina de sobreviver, sem tempo a perder, ou sem tempo para nada, além de trabalhar por algum salário que os mantivessem atrelados a rotina quase desesperadora, de quem apenas sobrevive.
Anacleto morava só, num pequeno apartamento de sala e quarto conjugados, cujo aluguel cabia no seu estreito salário de vendedor, em loja de eletrodomésticos.
Não, não era um homem infeliz, como pode pensar o meu leitor! Como qualquer ser humano, algo que também faz parte de algum misterioso mecanismo psicológico, adaptara-se com os anos, àquela vida enfadonha, sem esperança, sem objetivos, ou expectativas de algo que chegasse repentinamente, e num passe de mágica, transformasse ou transmutasse Anacleto e a realidade ao seu redor, em alguma realidade fantástica!
Um momento, meu caro leitor! Eu disse sem objetivos? Não! Quase esqueci o essencial da vida de Anacleto, além do copo de leite gelado, antes de dormir, e algumas doses de whisky barato, sempre que chegava do trabalho, após o banho, na sua poltrona, já meio velha e desbotada.
Creio ser importante descrever o ambiente do seu conjugado. O que acha o meu leitor? Concorda?
Uma mesa, tampo de madeira, duas cadeiras, algo semelhante a um buffet, duas estantes repletas de livros, sua velha poltrona, uma pequena mesa lateral de apoio, uma TV. Sua cama. Um criado-mudo, Um fogão, alguns utensílios de cozinha.
Nenhum quadro. Nenhum adorno. Nada que aquecesse alguma forma de graça ao ambiente. Frio, nu, o que criava um ar melancólico, ou sonambúlico. Um ar de pesadelo, um pouco sombrio. Refletia, possivelmente um certo estado de abandono emocional. É sempre interessante, senão curioso, observar que o ambiente reflete o estado íntimo do seu habitante.
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