Um passeio pela vida, um encontro com os mistérios, que a cada momento nos surpreendem com sua face obscura. Refletir sobre o que se oculta na existência, leva-nos ao caminho do autoconhecimento e da sabedoria.
terça-feira, 21 de abril de 2026
segunda-feira, 20 de abril de 2026
CONTOS DIVERSOS: PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHA
QUANDO EU CRESCER
Conto sobre um jovem adulto que se nega a deixar de ser adolescente, mantendo hábitos próprios dessa idade, como a ausencia de responsabilidades. A recusa de crescer.
Ele tinha vinte e oito anos, mas ainda dizia “quando eu crescer” com uma naturalidade quase comovente.
O nome dele era Rafael, embora poucos o chamassem assim. Entre os amigos — os mesmos desde o ensino médio — ele era apenas Rafa. E naquele pequeno universo que insistia em preservar, o tempo parecia não ter avançado. As conversas ainda giravam em torno de memes, jogos, planos vagos e promessas que nunca ultrapassavam a madrugada.
Rafa morava no mesmo quarto desde os quinze. As paredes, ainda cobertas de pôsteres desbotados, guardavam uma espécie de resistência silenciosa contra o mundo lá fora. A cama desarrumada, o videogame ligado por horas, a pilha de roupas que nunca chegava ao armário — tudo conspirava para manter intacta uma adolescência que já não lhe cabia.
Sua mãe, cansada de repetir as mesmas perguntas, já não perguntava mais. O pai, quando aparecia na porta do quarto, apenas suspirava — um som breve, pesado, que dizia mais do que qualquer discurso.
— Você não acha que já está na hora? — ele disse uma vez, sem especificar exatamente o quê.
Rafa riu.
— Hora de quê?
E voltou os olhos para a tela.
Não era exatamente preguiça. Nem incapacidade. Era uma espécie de recusa íntima, quase filosófica. Crescer, para ele, parecia uma traição. Uma adesão silenciosa a um pacto que nunca assinara: acordar cedo, trabalhar em algo que não amava, pagar contas, fingir maturidade em conversas vazias.
Ele via os outros — antigos colegas agora com empregos, filhos, boletos — e sentia uma mistura de estranhamento e superioridade. Como se tivesse descoberto algo que eles não perceberam.
— Vocês viraram adultos — dizia, meio rindo, meio sério. — Eu não.
Mas havia momentos, breves e perigosos, em que o silêncio se tornava mais denso. Quando a casa dormia. Quando o videogame desligava. Quando o celular não vibrava.
Nesses intervalos, Rafa percebia pequenas fissuras.
O corpo já não respondia com a mesma leveza. Os amigos começavam a desaparecer em compromissos. As conversas ficavam mais curtas. Os convites, mais raros.
E havia também aquele incômodo difícil de nomear — uma sensação de estar parado enquanto tudo ao redor seguia.
Certa madrugada, olhando o teto, ele se lembrou de si mesmo aos dezessete anos. Lembrou da pressa que tinha de viver, da ansiedade pelo futuro, das ideias grandiosas que pareciam inevitáveis.
“O que aconteceu?”, pensou.
Mas afastou o pensamento como quem fecha uma janela em dia de vento.
No dia seguinte, acordou ao meio-dia. Ligou o videogame. Pediu comida. Riu de vídeos curtos. Respondeu mensagens sem profundidade.
A rotina era confortável. Familiar. Protegida.
Ainda assim, algo havia mudado.
Não fora o mundo — esse já vinha mudando há muito tempo.
Era ele que, pela primeira vez, começava a perceber o peso da escolha que fazia todos os dias: permanecer.
E permanecer, descobriu aos poucos, também era uma forma de movimento — só que em direção oposta.
Naquela noite, quando o pai passou pela porta do quarto, Rafa não fingiu não ouvir.
— Pai — chamou, antes que ele fosse embora.
O homem parou, surpreso.
— Oi.
Rafa hesitou. Olhou ao redor, como se visse o quarto pela primeira vez.
— Como é que a gente… começa?
O pai não respondeu de imediato. Apenas entrou, sentou na beira da cama e, por um instante, ambos ficaram em silêncio — não o silêncio vazio das madrugadas, mas um outro, mais denso, quase inaugural.
Rafa não havia crescido ainda.
Mas, talvez pela primeira vez, deixara de se recusar.
prof. mario moura
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AMARGAS MEMÓRIAS
O barulho nunca ia embora.
Não era o das sirenes — esse ele já nem ouvia mais. Nem o estampido seco dos disparos, que seu corpo aprendera a absorver antes mesmo que a mente pudesse reagir. O som que persistia era outro: um eco irregular, feito de vozes interrompidas, passos apressados, pedidos de socorro que chegavam tarde demais.
O nome dele era Augusto, inspetor há mais de quinze anos. O tipo de homem que, à primeira vista, parecia sólido — postura firme, olhar contido, poucas palavras. Mas por dentro, havia algo em constante desgaste, como uma peça girando sem descanso.
Ele não sonhava. Ou melhor, não dormia o suficiente para que os sonhos se organizassem. Quando fechava os olhos, vinham fragmentos. Um rosto. Um corredor mal iluminado. Um grito. Sempre incompleto. Sempre inacabado.
Na delegacia, era respeitado. Resolvia casos. Sabia onde procurar, o que perguntar, quando pressionar. Não hesitava. Não tremia. Não desviava o olhar.
— Você tem sangue frio — disse um colega certa vez, admirado.
Augusto não respondeu. Sabia que não era frieza. Era saturação.
A cidade lhe mostrava o pior todos os dias. Corpos descartados em terrenos baldios. Crianças com medo demais para chorar. Histórias que se repetiam com pequenas variações, como se a violência tivesse um roteiro próprio, insistente.
E havia algo pior do que ver.
Era lembrar.
Ele lembrava de tudo.
Não como narrativa — começo, meio e fim —, mas como estilhaços. Um detalhe insignificante que não devia importar, mas ficava. O sapato de uma vítima fora do lugar. A televisão ainda ligada numa casa vazia. Um relógio parado na hora exata em que tudo terminou.
Esses detalhes voltavam sem aviso, no meio de uma conversa, durante um café, ao parar no sinal.
E, às vezes, vinham acompanhados de uma pergunta silenciosa:
“Em que momento isso deixou de me afetar?”
A resposta nunca vinha.
Certa noite, após uma ocorrência particularmente brutal, Augusto voltou para casa mais tarde que o habitual. Lavou as mãos demoradamente, como sempre fazia, embora soubesse que não havia sujeira visível.
Sentou-se no sofá. A televisão piscava imagens que ele não via.
Foi então que percebeu algo diferente.
Silêncio.
Não o silêncio da ausência de som, mas a ausência momentânea daquele eco interno que o perseguia. Um vazio breve, quase impossível.
Durou poucos segundos.
Logo, uma memória se impôs — nítida, intrusiva.
Um garoto. Não devia ter mais de dez anos. Olhos arregalados. Não de dor, mas de surpresa. Como se não entendesse o que estava acontecendo.
Augusto fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar a imagem para longe.
Mas ela não obedecia mais.
— Chega — murmurou, para ninguém.
Levantou-se abruptamente, caminhou pela casa, abriu janelas, respirou fundo. O ar da madrugada era pesado, mas ainda assim diferente daquele que carregava dentro de si.
Naquele instante, algo lhe ocorreu — não como solução, mas como constatação:
Ele não estava apenas lembrando.
Estava sendo habitado por tudo aquilo.
A violência não ficava nas ruas, nem nos relatórios, nem nos arquivos encerrados. Ela encontrava espaço. Instalava-se. Permanecia.
E ele, de alguma forma, havia permitido.
Ou talvez não houvesse escolha.
No dia seguinte, voltou ao trabalho.
A rotina o esperava, intacta. Chamados, relatórios, urgências. O mundo não pausava para que ele reorganizasse o que estava quebrado.
Mas algo havia se deslocado, ainda que minimamente.
Quando entrou na sala de interrogatório, não foi o suspeito que chamou sua atenção primeiro.
Foi o espelho.
Por um breve instante, viu a si mesmo — não como o policial experiente, eficiente, respeitado.
Mas como alguém cansado.
Profundamente cansado.
E, talvez pela primeira vez, essa percepção não veio acompanhada de resistência.
Augusto puxou a cadeira, sentou-se e apoiou as mãos sobre a mesa.
Lá fora, a cidade continuava produzindo histórias que ele ainda ouviria.
Mas ali, naquele espaço pequeno e fechado, ele percebeu que havia outra investigação em curso — uma que não constava em nenhum relatório.
E dessa, ele ainda não sabia como sair.
prof. mario moura
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Helena Duarte era um nome que ocupava vitrines, listas de mais vendidos e mesas de debates literários. Seus romances eram conhecidos pela precisão emocional, pela forma como capturavam silêncios, ausências, aquilo que não se dizia. Diziam que ela escrevia como quem escuta algo muito antigo.
Ninguém sabia exatamente o quê.
No apartamento amplo, de janelas altas voltadas para a cidade, Helena mantinha uma rotina disciplinada. Café às seis, leitura às sete, escrita às oito. Às nove, o primeiro bloqueio.
Ela o reconhecia como se fosse uma visita antiga — não inesperada, mas nunca bem-vinda.
Sentava-se diante da página em branco e esperava. Às vezes, uma frase surgia, hesitante. Duas, talvez. Mas logo algo se impunha, não como pensamento, mas como presença.
Uma memória.
Não vinha inteira. Nunca vinha. Era sempre um fragmento — uma porta entreaberta, o cheiro de madeira antiga, um som abafado que não conseguia nomear. E, sobretudo, uma sensação: a de estar presa em um tempo que não avançava.
Helena afastava-se da mesa, caminhava pela casa, tentava reorganizar o corpo no presente. Mas a lembrança não obedecia a limites. Instalava-se com uma familiaridade cruel, como se tivesse direito àquele espaço.
Ela aprendera, ao longo dos anos, a contornar. A transformar. Seus primeiros livros nasceram assim — deslocando aquilo que não podia ser dito diretamente para personagens, cenários, conflitos que, à primeira vista, pareciam distantes.
O público chamava de talento.
A crítica, de profundidade.
Mas, com o tempo, algo mudou.
As histórias começaram a resistir.
Os personagens paravam no meio do caminho, como se também evitassem atravessar certos territórios. Os enredos se desmanchavam antes de alcançar o ponto de tensão. E Helena, que antes encontrava saídas na ficção, agora se via cercada.
Certa manhã, escreveu uma cena que não reconheceu como sua.
Uma menina parada diante de uma porta. A mão suspensa no ar, indecisa. O texto não avançava, mas também não retrocedia. Ficava ali, fixo, como uma fotografia.
Helena leu e releu.
Havia algo diferente.
Não era metáfora. Não era deslocamento. Era direto demais.
Ela fechou o laptop com brusquidão.
O coração acelerado não correspondia ao gesto simples. Era como se o corpo tivesse entendido algo antes da mente.
Passou o dia evitando voltar àquela cena. Ligou para a editora, respondeu e-mails, tentou ocupar o tempo com tarefas menores. Mas, por trás de tudo, havia uma espécie de insistência silenciosa.
À noite, sem conseguir dormir, abriu novamente o arquivo.
A menina ainda estava lá.
Esperando.
Helena aproximou-se da tela com cautela, como quem se aproxima de algo vivo. Seus dedos pairaram sobre o teclado.
E então percebeu: o que a paralisava não era a falta de história.
Era a proximidade.
Durante anos, ela escrevera em torno daquilo. Nunca através.
Sempre houvera uma distância segura — personagens que carregavam dores semelhantes, mas nunca idênticas; cenários que diluíam o impacto; finais que ofereciam algum tipo de resolução, ainda que parcial.
Agora, essa distância desaparecera.
A memória não aceitava mais ser transformada.
Queria ser vista.
Helena respirou fundo, sentindo o peso daquela constatação.
Escrever sempre fora, para ela, uma forma de controle — escolher palavras, organizar o caos, dar forma ao informe. Mas havia algo naquela experiência que resistia à linguagem. Algo que escapava, que não se deixava capturar sem distorção.
Talvez fosse por isso que voltava.
Não por insistência cruel, mas por inacabamento.
Ela começou a digitar.
Não com a segurança de antes, nem com a fluidez que a tornara conhecida. As frases vinham irregulares, por vezes truncadas, como se precisassem atravessar uma matéria densa antes de se formar.
A menina tocou a porta.
Helena parou.
O gesto, tão simples na superfície, carregava um peso desproporcional. Ela sabia disso. Sentia isso.
Mas, pela primeira vez, não recuou.
Continuou.
As palavras não resolviam. Não explicavam. Não suavizavam. Mas também não fugiam.
E, naquele processo imperfeito, algo começou a se deslocar.
Não era alívio. Nem superação.
Era, talvez, um tipo diferente de presença.
Menos invasiva. Mais nomeável.
Quando o sol começou a nascer, Helena ainda estava escrevendo. O texto à sua frente não se parecia com nada que ela já tivesse publicado. Não havia ali o acabamento que o público esperava, nem a elegância que a crítica elogiava.
Mas havia algo novo.
Uma espécie de honestidade que não dependia de forma.
Ela recostou-se na cadeira, exausta.
Sabia que aquele livro não seria fácil. Nem para ela, nem para quem o lesse.
Mas também sabia que, pela primeira vez em muito tempo, não estava apenas evitando.
Estava atravessando.
E talvez — pensou, fechando os olhos por um instante — fosse esse o começo real de sua escrita.
prof. mario moura
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O primeiro indício foi o silêncio.
Não o silêncio comum — aquele que se instala com o cansaço do dia —, mas um outro, mais denso, quase calculado. Clara percebeu numa terça-feira qualquer, enquanto os dois jantavam. Henrique respondia às perguntas com frases curtas, como se cada palavra fosse pesada antes de sair.
— Está tudo bem? — ela perguntou.
— Está — respondeu ele, sem levantar os olhos.
E voltou ao prato.
Nos dias seguintes, vieram outros sinais. O celular que antes ficava esquecido sobre a mesa passou a acompanhá-lo até o banheiro. As notificações, antes abertas sem pressa, agora eram apagadas com rapidez. As chegadas tardias, justificadas por reuniões que Clara não conseguia confirmar.
Nada concreto. Apenas pequenas distorções.
Mas Clara sempre acreditara que a verdade não se revelava nos grandes gestos — e sim nas mínimas alterações de ritmo.
Uma noite, enquanto Henrique tomava banho, o celular vibrou sobre a cama.
Ela hesitou.
Não era a primeira vez que sentia vontade de olhar. Mas até então, havia resistido. Havia algo de definitivo naquele gesto, como cruzar uma linha invisível.
O aparelho vibrou novamente.
Na tela, apenas um nome: “L.”
Sem foto. Sem contexto.
Clara sentiu um frio preciso, quase cirúrgico.
Pegou o celular.
A conversa estava aberta. Não havia mensagens explícitas, nenhuma confissão, nenhum vestígio inequívoco. Mas havia um tom. Um tipo de intimidade difícil de nomear.
“Você chegou bem?”
“Sim. E você?”
“Agora sim.”
Clara leu e releu. As palavras eram neutras, mas havia algo entre elas — um espaço carregado, como se dissessem mais do que mostravam.
Ela devolveu o celular ao lugar exatamente como estava.
Quando Henrique saiu do banho, encontrou Clara sentada na beira da cama.
— Quem é L.? — ela perguntou, sem rodeios.
Ele parou por um instante. Apenas um segundo — mas foi suficiente.
— Uma colega do trabalho.
— Colega de quê?
— De projeto.
A resposta veio rápida demais.
Clara assentiu lentamente.
— Vocês se falam bastante.
Henrique deu de ombros.
— Coisa de trabalho.
O silêncio que se seguiu não era mais o mesmo de antes. Havia agora uma tensão que não se dissipava, como um fio esticado ao limite.
Nos dias seguintes, Clara passou a observar.
Não confrontava. Não acusava. Apenas reunia fragmentos.
O perfume diferente na camisa. A mudança súbita de humor. A atenção dispersa.
E, ao mesmo tempo, havia momentos em que Henrique parecia exatamente o mesmo de sempre — presente, atento, até carinhoso.
Essa oscilação era o que mais a desestabilizava.
Se houvesse certeza, haveria também uma direção.
Mas a dúvida… a dúvida se espalhava.
Certa noite, ele voltou mais tarde do que o habitual. Disse que o trânsito estava ruim. Clara não respondeu.
Enquanto ele se movia pela casa, tirando os sapatos, largando as chaves, ela o observava como se fosse um estranho que tentava imitar alguém conhecido.
— Você não vai dizer nada? — ele perguntou, por fim.
Clara levantou-se devagar.
— Eu não sei o que dizer — respondeu.
E era verdade.
Porque qualquer acusação exigia uma prova que ela não tinha.
E qualquer absolvição exigia uma confiança que já não possuía.
Na madrugada, Clara acordou com um movimento ao lado.
Henrique não estava na cama.
Levantou-se em silêncio e caminhou até a sala.
A luz do celular iluminava o rosto dele. Ele estava de costas, mas a postura era inequívoca — inclinado, concentrado, como quem fala baixo para não ser ouvido.
Clara não avançou.
Ficou parada no corredor, na fronteira entre ver e não ver.
O coração batia rápido, mas não havia pânico. Havia uma clareza estranha.
Ela poderia dar mais um passo. Poderia ouvir. Poderia, finalmente, saber.
Mas também sabia que o que encontrasse ali — qualquer que fosse — não devolveria o que já havia sido perdido.
Recuou.
Voltou para o quarto.
Deitou-se novamente, olhando o teto escuro.
Quando Henrique retornou, minutos depois, ela manteve os olhos fechados.
Na manhã seguinte, o café foi silencioso.
Henrique tentou iniciar uma conversa trivial. Clara respondeu com a mesma neutralidade que ele usara dias antes.
— Você está estranha — ele disse, por fim.
Clara o encarou.
Por um instante, pensou em perguntar tudo. Em exigir respostas, em expor cada detalhe, cada indício.
Mas as palavras não vieram.
No lugar delas, surgiu uma pergunta diferente — uma que não dependia dele.
— Se eu te perguntasse — começou, com a voz calma — você diria a verdade?
Henrique sustentou o olhar.
— Diria.
Ela assentiu.
Mas não perguntou.
O silêncio que se seguiu não era vazio.
Era uma decisão.
Naquela noite, enquanto arrumava uma mala pequena, Clara percebeu que a dúvida tinha se tornado mais pesada do que qualquer certeza possível.
Não importava mais se houve traição.
O que importava era que ela já não conseguia habitar aquele espaço sem se fragmentar.
Henrique a observava da porta, confuso, inquieto.
— Você vai embora por causa de uma suspeita? — perguntou.
Clara fechou a mala.
Pensou por um instante.
— Não — respondeu. — Eu vou embora por causa da dúvida.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, não havia hesitação em sua voz.
A porta se fechou atrás dela com um som seco, definitivo.
Do lado de dentro, Henrique ficou parado, cercado por respostas que talvez nunca precisasse dar.
E do lado de fora, Clara caminhou sem olhar para trás — não porque tivesse certeza, mas porque, finalmente, aceitara que talvez nunca tivesse.
prof. mario moura
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Quando o primeiro livro saiu, disseram que era original.
Quando o segundo veio, disseram que era voz.
No terceiro, já falavam em estilo — algo raro, quase impossível de fabricar.
E foi exatamente aí que Daniel começou a desconfiar.
Não de si mesmo como escritor, mas de si como origem.
A suspeita não surgiu como uma ideia clara. Veio como um ruído — um incômodo leve, quase imperceptível, que se infiltrava enquanto escrevia. Uma sensação de déjà vu, mas não de algo vivido. De algo... captado.
Ele estava acostumado ao processo: sentar, esperar, e então, de algum lugar indefinido, as frases vinham. Não como esforço, mas como recepção. Sempre fora assim.
Mas, com o tempo, aquilo deixou de parecer natural.
Certa noite, escrevendo uma cena crucial de seu novo romance, Daniel parou no meio de um parágrafo. Não por falta de palavras, mas por excesso de familiaridade.
Ele conhecia aquela cena.
Não no sentido de tê-la criado, mas de tê-la reconhecido.
Um homem numa estação vazia, segurando uma carta que nunca seria entregue. A descrição era precisa demais, carregada de uma melancolia que não parecia construída — parecia lembrada.
Daniel fechou o laptop lentamente.
— De onde veio isso? — murmurou.
A pergunta não encontrou resposta.
Nos dias seguintes, começou a reler suas próprias obras com um olhar diferente. Não como autor, mas como investigador.
Buscava padrões.
Repetições.
Fragmentos que pudessem indicar uma fonte externa.
E encontrou.
Personagens que apareciam com variações mínimas em livros diferentes. Situações que ecoavam outras, como se fossem versões de uma mesma história tentando se contar de formas distintas.
Era sutil. Mas persistente.
Como um sinal atravessando frequências.
A ideia, então, tomou forma:
E se ele não estivesse criando?
E se estivesse apenas sintonizando?
A hipótese parecia absurda à primeira vista. Mas, quanto mais pensava, mais coerente se tornava.
O cérebro como receptor. A mente como antena.
E o que ele chamava de imaginação seria, na verdade, uma espécie de escuta.
Uma captação de narrativas dispersas — memórias coletivas, desejos não realizados, histórias que nunca foram escritas, mas que insistiam em existir.
Daniel tentou resistir à ideia.
— É só inspiração — disse a si mesmo. — Todo escritor sente isso.
Mas a explicação não o satisfazia mais.
Porque inspiração não explicava a precisão.
Nem a recorrência.
Nem aquela estranha sensação de que algumas passagens já estavam prontas antes mesmo de ele começar a escrevê-las.
Decidiu testar.
Durante uma semana, não escreveu nada. Evitou qualquer contato com livros, filmes, conversas profundas. Queria silenciar o suposto “sinal”.
Nos primeiros dias, sentiu apenas vazio.
Depois, inquietação.
E então, na quinta noite, aconteceu.
Estava deitado, no escuro, quando uma imagem surgiu — nítida, completa.
Uma mulher caminhando por uma cidade inundada. Não havia pânico, apenas aceitação. Ela carregava uma mala pequena, como se soubesse que não havia mais para onde ir.
Daniel levantou-se imediatamente.
— Não — disse em voz alta.
Mas a imagem não se dissipou.
Pelo contrário — ganhou detalhes. Sons. Cheiros.
Era como assistir a algo que já estava acontecendo em algum outro lugar.
Ele caminhou até o escritório, mas não abriu o laptop.
Ficou parado diante da mesa, respirando fundo.
Se escrevesse, estaria confirmando.
Se não escrevesse, estaria negando algo que claramente existia.
A dúvida se instalou com força total.
Nos dias seguintes, as “captações” se intensificaram.
Cenas surgiam sem aviso. Diálogos completos, com vozes distintas. Histórias que pareciam pedir passagem.
E Daniel, cada vez mais, sentia que não era o autor.
Era o meio.
Essa percepção começou a afetar tudo.
Entrevistas tornaram-se desconfortáveis. Como explicar um processo que ele mesmo já não compreendia? Como reivindicar autoria de algo que talvez não lhe pertencesse?
— De onde vêm suas ideias? — perguntavam.
Ele sorria, evasivo.
— De muitos lugares.
Era a resposta mais honesta que conseguia dar.
Mas, por dentro, a pergunta ecoava com outra intensidade:
De quem são essas histórias?
Certa madrugada, exausto, decidiu confrontar a questão de forma definitiva.
Sentou-se à mesa.
Abriu um documento em branco.
E escreveu:
“Se eu não sou o autor, então quem escreve através de mim?”
A pergunta ficou ali, pulsando na tela.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então, lentamente, as palavras começaram a surgir.
Não como antes — fluidas e naturais —, mas com uma resistência estranha, como se algo precisasse atravessar uma barreira.
“Você já sabe.”
Daniel congelou.
As mãos pairaram sobre o teclado.
O coração acelerou.
Ele não lembrava de ter pensado aquela frase.
Mas ela estava ali.
Continuou.
“Você sempre soube.”
Daniel recuou na cadeira.
O quarto parecia menor.
O ar, mais denso.
— Isso sou eu — disse, tentando se convencer.
Mas a frase seguinte surgiu antes que pudesse formular qualquer pensamento.
“Somos muitos.”
Ele fechou o laptop com força.
O som ecoou no silêncio da casa.
Ficou ali, imóvel, tentando reorganizar a própria percepção.
Era impossível.
Se aquilo era fruto de sua mente, então sua mente era mais vasta — e mais fragmentada — do que imaginava.
Se não era… então a alternativa era ainda mais perturbadora.
Na manhã seguinte, Daniel não abriu o computador.
Nem no dia seguinte.
Nem no outro.
As histórias continuavam vindo.
Mas ele não as registrava mais.
Com o tempo, começaram a se dissipar — como sinais que perdem força quando não encontram receptor.
Meses depois, seu editor ligou.
— Precisamos do novo livro.
Daniel hesitou.
Olhou para o escritório, agora silencioso.
Para a mesa vazia.
Para o laptop fechado.
— Acho que… — começou, mas não terminou.
Porque, naquele instante, uma nova imagem surgiu.
Mais forte do que todas as anteriores.
Um homem sentado diante de uma página em branco, tentando decidir se escreve ou não.
Daniel sentiu um arrepio.
A cena era detalhada demais.
Familiar demais.
Ele entendeu.
Lentamente, caminhou até a mesa.
Abriu o laptop.
E, antes mesmo de começar a digitar, teve a estranha — e inevitável — sensação de que aquela história já estava sendo contada.
Em algum lugar.
Por alguém.
Ou por muitos.
prof. mario moura
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O frade Tomás não escolheu Judas.
Foi Judas quem permaneceu.
No mosteiro, as leituras seguiam o ciclo das horas, como sempre haviam seguido. Salmos, cartas, evangelhos. As palavras repetidas moldavam o tempo, davam-lhe contorno e ritmo. Tomás conhecia cada passagem como quem reconhece um caminho já percorrido muitas vezes.
Mas, havia meses, algo se desviara.
Toda vez que o nome surgia — Judas —, não era apenas mais um personagem na narrativa sagrada. Havia uma pausa, quase imperceptível, um intervalo que não existia antes. Como se aquela palavra abrisse uma fresta.
No início, Tomás resistiu.
Não por falta de fé, mas por excesso dela. Sabia o lugar de Judas na tradição: o traidor, o que vendeu o Mestre, o que não suportou o peso do próprio ato.
Era simples.
Ou deveria ser.
Mas a simplicidade começou a incomodá-lo.
Certa tarde, durante a leitura solitária no scriptorium, deteve-se em uma frase que sempre lhe parecera secundária: “E Judas saiu, e era noite.”
Tomás repetiu mentalmente.
“Era noite.”
Havia algo ali.
Não uma justificativa — isso ele recusava —, mas uma densidade que nunca havia considerado. Como se aquela noite não fosse apenas externa, mas também interna. Um estado. Uma condição.
Fechou o livro.
Pela primeira vez, não pensou em Judas como função — o traidor necessário —, mas como homem.
E isso complicava tudo.
Nos dias seguintes, passou a buscar as passagens em que Judas aparecia. Lia devagar, quase com cautela, como quem teme alterar algo ao observar com atenção demais.
O que encontrou não foi clareza.
Foi silêncio.
Pouco se dizia sobre ele. Pouco se explicava. E, nesse pouco, cabia quase tudo.
— Por que você faz isso? — perguntou o irmão Mateus, ao perceber a insistência de Tomás.
— Isso o quê?
— Ficar voltando a ele.
Tomás hesitou.
— Não sei — respondeu, por fim. — Talvez porque ninguém mais volte.
Mateus franziu a testa.
— Ele fez o que fez.
— Sim.
— E isso basta.
Tomás assentiu, mas não se convenceu.
Porque, para ele, já não bastava.
Havia uma inquietação que não se dissipava. Não era dúvida sobre a traição — essa permanecia inegável —, mas sobre o modo como ela era compreendida.
E, sobretudo, sobre o lugar que restava para quem falhava.
Numa noite de vigília, enquanto os outros dormiam, Tomás permaneceu na capela. A chama das velas oscilava suavemente, projetando sombras que pareciam se mover por vontade própria.
Ele se ajoelhou.
— Senhor — disse em voz baixa —, não quero justificar o erro.
A frase ficou suspensa.
— Mas também não consigo aceitar que um homem seja apenas o seu pior momento.
O silêncio respondeu.
Ou talvez não tenha respondido.
Tomás fechou os olhos.
E, pela primeira vez, imaginou Judas não no ato da traição, mas depois. No intervalo entre o gesto e a consciência plena do que havia feito.
A percepção.
O peso.
A impossibilidade de voltar atrás.
Sentiu um aperto no peito.
Porque reconheceu algo.
Não a escala, não o evento — mas a estrutura.
A falha humana.
A decisão tomada no escuro.
O arrependimento que chega tarde demais.
Abriu os olhos rapidamente, como se tivesse ido longe demais.
— Não — murmurou. — Não é a mesma coisa.
Mas a distinção já não era tão nítida.
Nos dias que se seguiram, sua oração mudou.
Menos segura.
Mais interrogativa.
E, sem perceber, começou a incluir Judas — não como exemplo do que evitar, mas como presença a ser compreendida.
Isso o assustava.
Não pelo que Judas representava, mas pelo que essa aproximação revelava sobre si mesmo.
Certa manhã, o abade o chamou.
— Tenho ouvido coisas — disse, com voz serena.
Tomás abaixou a cabeça.
— Não estou negando nada, padre.
— Eu sei.
O abade caminhou lentamente pelo pequeno aposento.
— Mas você está se aproximando de um terreno delicado.
— Eu sei.
— E por quê?
Tomás demorou a responder.
— Porque… — começou, mas parou.
Como explicar algo que ainda não estava totalmente claro nem para si?
— Porque, se não houver lugar para ele — continuou, finalmente —, não sei se há lugar para nós.
O abade o observou longamente.
Não havia reprovação em seu olhar.
Mas havia preocupação.
— Há coisas que não nos cabe resolver — disse.
Tomás assentiu.
— Talvez.
Saiu dali sem alívio.
Naquela noite, voltou à capela.
Não levou livro.
Não levou palavras prontas.
Sentou-se no banco de madeira e permaneceu em silêncio.
Pensou em Judas.
Pensou no beijo.
Pensou na escolha.
E pensou, sobretudo, no que vinha depois.
O arrependimento.
O desespero.
O fim.
Mas, dessa vez, não tentou concluir.
Não tentou decidir se estava certo ou errado.
Permaneceu na dúvida.
E, pela primeira vez, percebeu que a dúvida não era ausência de fé.
Era uma forma mais exigente dela.
Ao sair da capela, o céu começava a clarear.
Não era mais noite.
Mas também não era ainda dia.
Tomás parou por um instante, olhando o horizonte indefinido.
E compreendeu que talvez Judas habitasse exatamente ali — nesse intervalo incômodo entre a condenação e a compreensão.
Um lugar onde nenhuma resposta era definitiva.
E onde, ainda assim, era preciso permanecer.
prof. mario moura
sábado, 18 de abril de 2026
Mais de 55 anos? Troque todo o seu Treino por estes 3 exercícios para Força Absurda!
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