quarta-feira, 22 de abril de 2026

ASSIM A VIDA ACONTECE...

ASSIM A VIDA ACONTECE...

Havia um silêncio particular no quarto de Miguel — não o silêncio vazio, mas aquele cheio de páginas viradas, de pensamentos não ditos e de mundos inteiros escondidos entre capas desgastadas. 
Para ele, os livros não eram fuga; eram lar. 

 Na escola, Miguel era quase invisível. Sentava-se sempre na última carteira, com o corpo encolhido e os olhos atentos — não ao professor, mas ao livro, discretamente aberto sob a mesa. 

Os professores o viam como distraído, às vezes até desinteressado. 
“Você precisa participar mais”, diziam, sem perceber que ele participava de centenas de histórias todos os dias, só não daquela sala. 
Os colegas eram mais diretos. Alguns riam de seu silêncio, outros simplesmente o ignoravam. Para eles, Miguel era estranho: alguém que preferia companhia de papel a conversas no intervalo. 

Ele não sabia como explicar que, nos livros, ninguém o interrompia, ninguém o julgava, ninguém exigia que ele fosse diferente. 
Em casa, a situação não era melhor. 
Seu pai considerava sua introspecção uma fraqueza. “Você precisa ser mais firme, mais sociável”, insistia, como se fosse apenas uma escolha simples.

Sua mãe, embora mais gentil, também não o compreendia totalmente. Preocupava-se com o isolamento do filho, sem entender que aquele era o único lugar onde ele se sentia seguro. 
Mas havia algo — ou alguém — que tornava seus dias mais intensos. 
Helena. 
Ela sentava duas fileiras à frente, sempre rodeada de amigos, risos e conversas que Miguel jamais ousaria entrar. 

Seus cabelos refletiam a luz da janela, e sua voz tinha uma leveza que ele só conhecia dos livros mais delicados. 
Miguel a observava em silêncio, como quem lê um poema sem nunca dizer em voz alta. Ele sabia que ela não o via. 

Não de verdade. Era apenas mais um rosto na multidão — talvez nem isso. Ainda assim, ele criava histórias... 
Em sua mente, Helena era personagem de mil narrativas: às vezes, uma aventureira destemida; outras, uma leitora apaixonada que, por acaso, encontrava Miguel em uma biblioteca esquecida. 

Nessas histórias, ela o enxergava. Nessas histórias, ele existia. 
Certa tarde, durante uma atividade em grupo — daquelas que Miguel temia —, o professor sorteou os alunos. 
Por um acaso cruel ou milagroso, Helena foi parar em seu grupo. 
 O mundo pareceu parar. Ela se virou para ele com um sorriso breve e disse: — Você pode anotar as ideias? 
 Miguel assentiu, incapaz de responder. 
Não era amor correspondido, nem sequer um começo. Mas, naquele instante, Helena havia falado com ele. Não com a multidão. Com ele. 

Naquela noite, Miguel não leu. Pela primeira vez em muito tempo, ele ficou apenas sentado, olhando para o teto, revivendo aquele pequeno momento. Talvez, pensou, o mundo fora dos livros não fosse totalmente inacessível. Talvez fosse apenas mais difícil de entender. E, quem sabe, mais assustador — justamente por ser real. Ainda assim, no dia seguinte, ele levou um livro consigo. Não como esconderijo, mas como companhia. Porque, mesmo que ninguém o visse completamente, seus mundos continuavam ali — esperando, acolhendo, compreendendo. E isso, para Miguel, fazia toda a diferença. 

Depois daquele primeiro trabalho em grupo, algo mudou — não de forma brusca, mas como uma brisa leve que, aos poucos, altera o rumo de um barco. 
Miguel continuava o mesmo: silencioso, observador, escondido atrás de seus livros. Mas Helena, agora, sabia que ele existia. 
No início, foi quase imperceptível. Um “obrigada” ao final de uma atividade. Um “você entendeu essa parte?” dito com naturalidade.

Pequenos gestos que, para qualquer outro, seriam banais — mas, para Miguel, eram como páginas inéditas de uma história que ele nunca imaginou viver. 

Helena começou a notar coisas. Notou como ele nunca interrompia ninguém. Como parecia ouvir com atenção genuína, mesmo quando não falava. Como seus cadernos eram organizados, com uma caligrafia cuidadosa e quase tímida, como se até suas palavras tivessem medo de ocupar espaço demais. 
E, sobretudo, ela percebeu o modo como ele evitava olhá-la diretamente — não por desinteresse, mas por algo mais delicado, quase transparente. Aquilo despertou nela uma curiosidade suave. Não era pena, nem exatamente interesse romântico. Era uma simpatia silenciosa, como quem encontra algo raro e não sabe ainda como nomear. 

 Certa tarde, na biblioteca da escola — um lugar onde Miguel se sentia invisível e, portanto, seguro — Helena apareceu. 
Ele a viu de longe e, imediatamente, seu corpo reagiu: os ombros tensos, o olhar fixo nas páginas que já não lia. Seu coração acelerou com uma urgência que ele não sabia controlar. 
Ela caminhou até a mesa onde ele estava. 

— Você sempre vem aqui, né? 

 Miguel demorou um segundo a perceber que a pergunta era para ele. 

 — Eu… sim. 

 Helena sorriu, sentando-se à sua frente sem pedir permissão — não por invasão, mas por naturalidade. 

— Eu nunca reparei como esse lugar é tranquilo. 

Miguel não respondeu. Não por falta de vontade, mas por excesso dela. Havia tantas possíveis respostas em sua mente que nenhuma conseguia sair. 
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável para Clara. Para Miguel, era um abismo. 

— O que você está lendo? — ela perguntou, inclinando levemente a cabeça.

Ele mostrou a capa, hesitante. Helena aproximou-se um pouco mais para ver melhor. Próxima demais, pensou ele. Perto o suficiente para que ele sentisse o perfume leve que ela usava. Perto o suficiente para que seus pensamentos se embaralhassem completamente. 

— Parece interessante — disse ela. 

— Você gosta muito de ler, né? 

Miguel assentiu. 

 — Eu acho isso… bonito. 

A palavra ficou suspensa no ar. 
Bonito. Ninguém jamais havia usado aquela palavra para descrever algo nele. 
Miguel sentiu um aperto estranho no peito. Não era dor. Era algo mais confuso — como se uma porta que sempre esteve trancada tivesse sido aberta de repente, deixando entrar luz demais. 

Nos dias seguintes, Helena passou a se aproximar com mais frequência. 
Às vezes na biblioteca, às vezes na sala de aula. Perguntas simples, conversas curtas, sorrisos que ela distribuía com facilidade — mas que, para Miguel, pareciam exclusivos. 
E era aí que o medo começava. Ele não sabia interpretar aquilo. Não sabia se era gentileza, curiosidade ou algo mais. 
Nos livros, sentimentos vinham com descrições claras, com narradores que explicavam cada nuance. Na vida real, tudo era ambíguo demais. 

Miguel começou a evitar algumas situações. Saía mais cedo da biblioteca quando a via entrando. Demorava a responder quando ela falava. Às vezes, fingia estar mais concentrado do que realmente estava. 
Helena percebeu. 

 — Eu fiz algo errado? — perguntou um dia, de forma direta, surpreendendo-o. 

 Miguel levantou os olhos rapidamente, assustado. 

 — Não… não. 

 — Então por que você está me evitando? 

Ele não tinha resposta. Ou melhor, tinha muitas. Mas nenhuma que pudesse ser dita sem expor demais aquilo que ele mal compreendia. 

 — Eu só… — começou, mas a frase morreu antes de nascer. 

Helena o observou por alguns segundos. Havia ali algo diferente do que ela encontrava em outras pessoas. Não era rejeição. Não era indiferença. Era medo. E, de alguma forma, isso a tocou. 

— Você não precisa fugir de mim — disse ela, mais suave agora. 
— Eu só… gosto de conversar com você. 

Miguel sentiu o chão desaparecer sob seus pés. 
Gostava. A palavra ecoou dentro dele, desorganizando tudo. Ele queria acreditar. Queria aceitar aquela aproximação como algo bom, simples, real. Mas uma parte dele — aquela que aprendera a se proteger no silêncio — insistia em duvidar. 
E se aquilo fosse passageiro? E se ele interpretasse errado? E se, ao se aproximar demais, ele perdesse até aquilo que tinha? 

 — Eu não sei fazer isso — ele disse, quase num sussurro. 

 — Isso o quê? 

 — Estar… perto das pessoas. 

Helena não respondeu imediatamente. Apenas sorriu de leve, com uma paciência que Miguel não estava acostumado a receber. 

— Tudo bem — disse ela. 
— A gente aprende. 

Não era uma promessa grandiosa. Não era uma declaração. Mas, para Miguel, era algo ainda mais assustador: Era a possibilidade de que aquela história não estivesse apenas em sua cabeça. E, pela primeira vez, isso não o confortava. O deixava vulnerável. E profundamente vivo. 

Helena não sabia exatamente quando Miguel deixou de ser apenas “o garoto quieto da sala”. Talvez tenha sido na biblioteca, naquele dia em que ele admitiu, quase em segredo, que não sabia estar perto das pessoas. 
Ou talvez tenha sido antes — nos pequenos detalhes que ela passou a observar com mais cuidado: o jeito como ele segurava o livro com delicadeza, como escolhia as palavras com cautela, como parecia sentir tudo com uma profundidade que o mundo ao redor não alcançava. 

O que começou como curiosidade virou presença. E a presença, sem que ela percebesse, começou a ocupar espaço dentro dela. 

Helena sempre viveu cercada de vozes, de amigos, de movimento. 
Mas, com Miguel, havia algo diferente: um silêncio que não incomodava, que não exigia. Um silêncio que acolhia. E isso a puxava para perto. 
Ela começou a procurá-lo sem motivo claro. 
Sentava-se ao lado dele na sala, mesmo quando podia escolher qualquer outro lugar. Inventava dúvidas só para iniciar conversas. 

E, aos poucos, foi percebendo que esperava por aqueles momentos. Esperava por ele. 
Miguel, por sua vez, vivia em um estado constante de intensidade contida. Cada palavra de Helena ecoava dentro dele por horas, às vezes dias. 
Cada sorriso era revisitado como uma cena preciosa. Ele não sabia lidar com aquilo — com o fato de que, pela primeira vez, alguém real estava atravessando as defesas que ele construiu durante toda a vida. 

Era bonito. E aterrorizante. Mas Helena não recuava. 
Ela aprendeu a respeitar os silêncios dele, a não forçar respostas, a entender que, quando Miguel falava, estava oferecendo algo raro — quase como se entregasse uma parte de si. 
E Miguel, pouco a pouco, começou a ficar. Já não fugia da biblioteca quando ela chegava. Já conseguia sustentar o olhar por alguns segundos a mais. Já ousava fazer perguntas, ainda que simples. 

Era uma transformação sutil, quase invisível para o resto do mundo — mas imensa para ele. 
Até que, em uma tarde comum, o extraordinário aconteceu. 
Estavam sentados sob uma árvore no pátio da escola. Helena falava sobre algo trivial — um professor, uma prova — mas Miguel não estava ouvindo as palavras. Estava apenas ali, sentindo. Sentindo a presença dela, o vento leve, o próprio coração batendo com força demais. 

— Miguel? — ela chamou, rindo. 
— Você viajou. 
Ele hesitou. Poderia fingir, como sempre fez. Mas não quis. 
— Eu gosto de você — disse, de uma vez, como quem salta sem saber onde vai cair. 
O mundo pareceu parar. Helena ficou em silêncio, surpresa — não pela revelação, mas pela coragem. 
Ela já suspeitava. Talvez até sentisse algo parecido. E, naquele instante, percebeu com clareza: também gostava dele. Não da forma fácil, superficial. Gostava do jeito complicado, profundo, inesperado. 

— Eu sei — respondeu, sorrindo de leve. 
— Eu também gosto de você. 

Foi simples. Sem dramatização. Sem roteiro. Mas foi real. 
O primeiro beijo veio dias depois, cheio de hesitação e descoberta. 
Não foi perfeito — houve nervosismo, um leve desencontro — mas, para ambos, foi inesquecível. 

Para Miguel, foi como atravessar uma fronteira invisível. Ele, que sempre viveu nos livros, estava agora dentro de uma história — uma que não podia controlar, prever ou reler. E, ainda assim, queria continuar. 

Com o tempo, a mudança nele tornou-se mais visível. Não deixou de ser introvertido — isso fazia parte de quem ele era — mas já não era prisioneiro do próprio silêncio. 
Aprendeu a falar, não com todos, mas com quem importava. 
Aprendeu que podia ser aceito sem precisar se transformar em alguém que não era. E Helena… Helena se apaixonou de verdade. 
Pela intensidade dele, pela forma como ele amava sem superficialidade, pela maneira como cada gesto dele parecia carregado de significado. 

 O tempo passou. A escola ficou para trás, substituída por escolhas, caminhos, distâncias. 
Houve momentos difíceis, dúvidas, até separações temporárias. 
A vida, diferente dos livros, não seguia uma linha contínua. Mas o que havia entre eles não desapareceu. 

Anos depois, já adultos, se reencontraram. Foi em uma livraria. Miguel estava ali — ainda com livros nas mãos, mas diferente. Mais seguro, mais presente. Não havia perdido sua essência, apenas a havia expandido. 

Helena o reconheceu imediatamente. E, ao vê-lo, sentiu algo familiar e ao mesmo tempo novo — como reler uma história que marcou sua vida, percebendo detalhes que antes passaram despercebidos. 

— Ainda gosta de livros? — ela perguntou, sorrindo. 

Miguel sorriu de volta, agora sem desviar o olhar. 

— Ainda gosto de você. 

Dessa vez, não houve hesitação. O reencontro não foi um recomeço, mas uma continuidade. 
E, quando decidiram se casar, não foi por impulso ou idealização — foi pela certeza construída ao longo do tempo, das dificuldades, das transformações. 

Voltando do trabalho, reunindo pequenas recordações de Helena, completamente absorto, e sorrindo com o final inesperado do casamento, misturado com momentos da sua timidez nos primeiros encontros com Helena, o colégio, colegas que notaram os encontros dele com Helena, nos intervalos das aulas, os gracejos... sua paixão por ... o sinal fechado... a freada tardia... o acidente. Segurando a mão de Clara no hospital, apenas olhava-a, com um leve sorriso, que anunciava mais tristeza do que alegria, fechou os olhos e adormeceu, o sono de uma despedida, de uma partida para o desconhecido. Clara acionou o alarme. Uma enfermeira chegou apressada. 
Clara chorava. 
 A enfermeira abraçou Clara...

mario moura


PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS

 PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS

mario americo moura filho prof.mario.a.moura@gmail.com

10:10 (há 0 minuto)
para simoneamoura

PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS

 A condição humana do cotidiano

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QUANDO EU CRESCER...    

Ele tinha vinte e oito anos, mas ainda dizia “quando eu crescer” com uma naturalidade quase comovente.

O nome dele era Rafael, embora poucos o chamassem assim. Entre os amigos — os mesmos desde o ensino médio — ele era apenas Rafa. E naquele pequeno universo que insistia em preservar, o tempo parecia não ter avançado. As conversas ainda giravam em torno de memes, jogos, planos vagos e promessas que nunca ultrapassavam a madrugada.

Rafa morava no mesmo quarto desde os quinze. As paredes, ainda cobertas de pôsteres desbotados, guardavam uma espécie de resistência silenciosa contra o mundo lá fora. A cama desarrumada, o videogame ligado por horas, a pilha de roupas que nunca chegava ao armário — tudo conspirava para manter intacta uma adolescência que já não lhe cabia.

Sua mãe, cansada de repetir as mesmas perguntas, já não perguntava mais. O pai, quando aparecia na porta do quarto, apenas suspirava — um som breve, pesado, que dizia mais do que qualquer discurso.

— Você não acha que já está na hora? — ele disse uma vez, sem especificar exatamente o quê. A que momento se referia, embora fosse óbvio...

Rafa riu.

— Hora de quê?

E voltou os olhos para a tela.

Não era exatamente preguiça. Nem incapacidade. Era uma espécie de recusa íntima, quase filosófica. Crescer, para ele, parecia uma traição. Uma adesão silenciosa a um pacto que nunca assinara: acordar cedo, trabalhar em algo que não amava, pagar contas, fingir maturidade em conversas vazias.

Ele via os outros — antigos colegas agora com empregos, filhos, boletos — e sentia uma mistura de estranhamento e superioridade. Como se tivesse descoberto algo que eles não perceberam.

— Vocês viraram adultos — dizia, meio rindo, meio sério. — Eu não.

Mas havia momentos, breves e perigosos, em que o silêncio se tornava mais denso. Quando a casa dormia. Quando o videogame desligava. Quando o celular não vibrava.

Nesses intervalos, Rafa percebia pequenas fissuras.

O corpo já não respondia com a mesma leveza. Os amigos começavam a desaparecer em compromissos. As conversas ficavam mais curtas. Os convites, mais raros.

E havia também aquele incômodo difícil de nomear — uma sensação de estar parado enquanto tudo ao redor seguia.

Certa madrugada, olhando o teto, ele se lembrou de si mesmo aos dezessete anos. Lembrou da pressa que tinha de viver, da ansiedade pelo futuro, das ideias grandiosas que pareciam inevitáveis.

“O que aconteceu?”, pensou.

Mas afastou o pensamento como quem fecha uma janela em dia de vento.

No dia seguinte, acordou ao meio-dia. Ligou o videogame. Pediu comida. Riu de vídeos curtos. Respondeu mensagens sem profundidade.

A rotina era confortável. Familiar. Protegida.

Ainda assim, algo havia mudado.

Não fora o mundo — esse já vinha mudando há muito tempo.

Era ele que, pela primeira vez, começava a perceber o peso da escolha que fazia todos os dias: permanecer.

E permanecer, descobriu aos poucos, também era uma forma de movimento — só que em direção oposta.

Naquela noite, quando o pai passou pela porta do quarto, Rafa não fingiu não ouvir.

— Pai — chamou, antes que ele fosse embora.

O homem parou, surpreso.

— Oi, filho...

Silêncio. Rafa hesitou. Olhou ao redor, não como se visse o quarto pela primeira vez, mas com a insólita sensação de se perceber como um estranho, alguém exilado em um mundo desconhecido.

— Como é que a gente… começa?

O pai não respondeu de imediato. Apenas entrou, sentou-se na beira da cama e, por um instante, ambos ficaram em silêncio — não o silêncio vazio das madrugadas, mas um outro, mais denso, quase inaugural.

Rafa não havia crescido ainda. 

Mas, talvez pela primeira vez, deixara de se recusar.  Algo se quebrara, sem ruído, sem alarde... Iniciava-se a coleta dos cacos.

mario moura

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AMARGAS MEMÓRIAS

O barulho nunca ia embora.

Não era o das sirenes — esse ele já nem ouvia mais. Nem o estampido seco dos disparos, que seu corpo aprendera a absorver antes mesmo que a mente pudesse reagir. O som que persistia era outro: um eco irregular, feito de vozes interrompidas, passos apressados, pedidos de socorro que chegavam tarde demais.

O nome dele era Augusto, inspetor há mais de quinze anos. O tipo de homem que, à primeira vista, parecia sólido — postura firme, olhar contido, poucas palavras. Mas por dentro, havia algo em constante desgaste, como uma peça girando sem descanso.

Ele não sonhava. Ou melhor, não dormia o suficiente para que os sonhos se organizassem. Quando fechava os olhos, vinham fragmentos. Um rosto. Um corredor mal iluminado. Um grito. Sempre incompleto. Sempre inacabado.

Na delegacia, era respeitado. Resolvia casos. Sabia onde procurar, o que perguntar, quando pressionar. Não hesitava. Não tremia. Não desviava o olhar.

— Você tem sangue frio — disse um colega certa vez, admirado.

Augusto não respondeu. Sabia que não era frieza. Era saturação.

A cidade lhe mostrava o pior todos os dias. Corpos descartados em terrenos baldios. Crianças com medo demais para chorar. Histórias que se repetiam com pequenas variações, como se a violência tivesse um roteiro próprio, insistente. 

E havia algo pior do que ver.  Era remoer os destroços, as sobras, era mastigar pequenas emoções, que se sente repentinamente, diante da desconstrução da vida.

Era lembrar. E como doía lembrar... 

Ele lembrava de tudo. Não conseguia escapar das assombrações que perseguiam  sua mente.  Não havia portas abertas para paisagens amenas.

Não como narrativa — começo, meio e fim —, mas como estilhaços, cacos de um espelho quebrado. Um detalhe insignificante que não devia importar, mas ficava. O sapato de uma vítima fora do lugar. A televisão ainda ligada numa casa vazia. Um relógio parado na hora exata em que tudo terminou. 

Os pequenos indícios que antecederam a crueldade, que contavam mais do que as tragédias em si, e tinham a permanência insistente dos resíduos que assinalam as maldades, o caráter sombrio da perversidade, do sadismo.

Não sabia como entender os segredos doentios da alma humana, se devia compadecer-se ou condenar. Era tomado por pensamentos paradoxais...

Esses detalhes voltavam sem aviso, no meio de uma conversa, durante um café, ao parar no sinal. Assombrava-se muitas vezes com a possibilidade de sentir odores de corpos inertes e ensanguentados. Tinha medo de ser traído pela possibilidade desses odores chegarem a ele.

E, às vezes, vinham acompanhados de uma pergunta silenciosa:

“Em que momento isso deixou de me afetar?”

A resposta nunca vinha.

Certa noite, após uma ocorrência particularmente brutal, Augusto voltou para casa mais tarde que o habitual. Lavou as mãos demoradamente, como sempre fazia, embora soubesse que não havia sujeira visível.

Sentou-se no sofá. A televisão piscava imagens que ele não via.

Foi então que percebeu algo diferente.

Silêncio.

Não o silêncio da ausência de som, mas a ausência momentânea daquele eco interno que o perseguia. Um vazio breve, quase impossível.

Durou poucos segundos.

Logo, uma memória se impôs — nítida, intrusiva. 

Um garoto. Não devia ter mais de dez anos. Olhos arregalados. Não de dor, mas de surpresa. Como se não entendesse o que estava acontecendo.

Augusto fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar a imagem para longe.

Mas ela não obedecia mais. Ganhara vida própria.

Passou as mãos na vasta cabeleira grisalha, murmurando palavras ininteligíveis, para ninguém.

Levantou-se abruptamente, caminhou pela casa, abriu janelas, respirou fundo. O ar da madrugada era pesado, mas ainda assim diferente daquele que carregava dentro de si.

Naquele instante, algo lhe ocorreu — não como solução, mas como constatação:

Ele não estava apenas lembrando.  Estava sendo habitado por tudo aquilo.

A violência não ficava nas ruas, nem nos relatórios, nem nos arquivos encerrados. Ela encontrava espaço. Instalava-se. Permanecia. Apossava-se dos seus sentidos, do seu espírito, derramava-se como água, invadindo todos os recantos  da sua memória.

 Ele, de alguma forma, havia permitido, sem se dar conta de que durante anos construira um cotidiano de violência. Tecera a trama de um vasto painel de sofrimento e angústia.

Ou talvez não houvesse escolha.

No dia seguinte, voltou ao trabalho.

A rotina o esperava, intacta. Chamados, relatórios, urgências. O mundo não pausava para que ele reorganizasse o que estava quebrado.

Mas algo havia se deslocado, ainda que minimamente.

Quando entrou na sala de interrogatório, não foi o suspeito que chamou sua atenção primeiro.

Foi o espelho.

Por um breve instante, viu a si mesmo — não como o policial experiente, eficiente, respeitado, temido.

Mas como alguém cansado. Profundamente cansado.

E, talvez pela primeira vez, essa percepção não veio acompanhada de resistência.

Augusto puxou a cadeira, sentou-se e apoiou as mãos sobre a mesa.

Lá fora, a cidade continuava produzindo histórias que ele ainda ouviria.

Mas ali, naquele espaço pequeno e fechado, ele percebeu que havia outra investigação em curso — uma que não constava em nenhum relatório.

E dessa, ele ainda não sabia como sair.

mario moura

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AMARGURADAS RECORDAÇÕES

Analice Vieira era um nome que ocupava vitrines, listas de mais vendidos e mesas de debates literários. Seus romances eram conhecidos pela precisão emocional, pela forma como capturavam silêncios, ausências, aquilo que não se dizia. Diziam que ela escrevia como quem escuta algo muito antigo.

Ninguém sabia exatamente o quê.

No apartamento amplo, de janelas altas voltadas para a cidade, Analice  mantinha uma rotina disciplinada. Café às seis, leitura às sete, escrita às oito. Às nove, o primeiro bloqueio.

Ela o reconhecia como se fosse uma visita antiga — não inesperada, mas nunca bem-vinda.

Sentava-se diante da página em branco e esperava. Às vezes, uma frase surgia, hesitante. Duas, talvez. Mas logo algo se impunha, não como pensamento, mas como presença.

Uma memória.

Não vinha inteira. Nunca vinha. Era sempre um fragmento — uma porta entreaberta, o cheiro de madeira antiga, um som abafado que não conseguia nomear. E, sobretudo, uma sensação: a de estar presa em um tempo que não avançava.

Analice afastava-se da mesa, caminhava pela casa, tentava reorganizar o corpo no presente. Mas a lembrança não obedecia a limites. Instalava-se com uma familiaridade cruel, como se tivesse direito àquele espaço.

Ela aprendera, ao longo dos anos, a contornar. A transformar. Seus primeiros livros nasceram assim — deslocando aquilo que não podia ser dito diretamente para personagens, cenários, conflitos que, à primeira vista, pareciam distantes.

O público chamava de talento. A crítica, de profundidade.

Mas, com o tempo, algo mudou.

As histórias começaram a resistir.

Os personagens paravam no meio do caminho, como se também evitassem atravessar certos territórios. Os enredos se desmanchavam antes de alcançar o ponto de tensão. E Analice, que antes encontrava saídas na ficção, agora se via cercada.

Certa manhã, escreveu uma cena que não reconheceu como sua.

Uma menina parada diante de uma porta. A mão suspensa no ar, indecisa. O texto não avançava, mas também não retrocedia. Ficava ali, fixo, como uma fotografia.

Analice leu e releu.

Havia algo diferente.

Não era metáfora. Não era deslocamento. Era direto demais.

Ela fechou o laptop com brusquidão.

O coração acelerado não correspondia ao gesto simples. Era como se o corpo tivesse entendido algo antes da mente.

Passou o dia evitando voltar àquela cena. Ligou para a editora, respondeu e-mails, tentou ocupar o tempo com tarefas menores. Mas, por trás de tudo, havia uma espécie de insistência silenciosa.

À noite, sem conseguir dormir, abriu novamente o arquivo.

A menina ainda estava lá.

Esperando.

Analice aproximou-se da tela com cautela, como quem se aproxima de algo vivo. Seus dedos pairaram sobre o teclado.

E então percebeu: o que a paralisava não era a falta de história.

Era a proximidade.

Durante anos, ela escrevera em torno daquilo. Nunca através.

Sempre houvera uma distância segura — personagens que carregavam dores semelhantes, mas nunca idênticas; cenários que diluíam o impacto; finais que ofereciam algum tipo de resolução, ainda que parcial.

Agora, essa distância desaparecera.

A memória não aceitava mais ser transformada.

Queria ser vista.

Analice respirou fundo, sentindo o peso daquela constatação.

Escrever sempre fora, para ela, uma forma de controle — escolher palavras, organizar o caos, dar forma ao informe. Mas havia algo naquela experiência que resistia à linguagem. Algo que escapava, que não se deixava capturar sem distorção.

Talvez fosse por isso que voltava.

Não por insistência cruel, mas por inacabamento.

Ela começou a digitar.

Não com a segurança de antes, nem com a fluidez que a tornara conhecida. As frases vinham irregulares, por vezes truncadas, como se precisassem atravessar uma matéria densa antes de se formar.

A menina tocou a porta.

Analice parou.

O gesto, tão simples na superfície, carregava um peso desproporcional. Ela sabia disso. Sentia isso.

Mas, pela primeira vez, não recuou.

Continuou.

As palavras não resolviam. Não explicavam. Não suavizavam. Mas também não fugiam.

E, naquele processo imperfeito, algo começou a se deslocar.

Não era alívio. Nem superação.

Era, talvez, um tipo diferente de presença.

Menos invasiva. Mais nomeável.

Quando o sol começou a nascer, Analice ainda estava escrevendo. O texto à sua frente não se parecia com nada que ela já tivesse publicado. Não havia ali o acabamento que o público esperava, nem a elegância que a crítica elogiava.

Mas havia algo novo.

Uma espécie de honestidade que não dependia de forma.

Ela recostou-se na cadeira, exausta.

Sabia que aquele livro não seria fácil. Nem para ela, nem para quem o lesse.

Mas também sabia que, pela primeira vez em muito tempo, não estava apenas evitando.

Estava atravessando.

E talvez — pensou, fechando os olhos por um instante — fosse esse o começo real de sua escrita.

mario moura

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A DUVIDOSA TRAIÇÃO

O primeiro indício foi o silêncio.

Não o silêncio comum — aquele que se instala com o cansaço do dia —, mas um outro, mais denso, quase calculado. Clara percebeu numa terça-feira qualquer, enquanto os dois jantavam. Henrique respondia às perguntas com frases curtas, como se cada palavra fosse pesada antes de sair.

— Está tudo bem? — ela perguntou.

— Está — respondeu ele, sem levantar os olhos.

E voltou ao prato.

Nos dias seguintes, vieram outros sinais. O celular que antes ficava esquecido sobre a mesa passou a acompanhá-lo até o banheiro. As notificações, antes abertas sem pressa, agora eram apagadas com rapidez. As chegadas tardias, justificadas por reuniões que Clara não conseguia confirmar.

Nada concreto. Apenas pequenas distorções.

Mas Clara sempre acreditara que a verdade não se revelava nos grandes gestos — e sim nas mínimas alterações de ritmo.

Uma noite, enquanto Henrique tomava banho, o celular vibrou sobre a cama.

Ela hesitou.

Não era a primeira vez que sentia vontade de olhar. Mas até então, havia resistido. Havia algo de definitivo naquele gesto, como cruzar uma linha invisível.

O aparelho vibrou novamente.

Na tela, apenas um nome: “L.”

Sem foto. Sem contexto.

Clara sentiu um frio preciso, quase cirúrgico.

Pegou o celular.

A conversa estava aberta. Não havia mensagens explícitas, nenhuma confissão, nenhum vestígio inequívoco. Mas havia um tom. Um tipo de intimidade difícil de nomear.

“Você chegou bem?”

“Sim. E você?”

“Agora sim.”

Clara leu e releu. As palavras eram neutras, mas havia algo entre elas — um espaço carregado, como se dissessem mais do que mostravam.

Ela devolveu o celular ao lugar exatamente como estava.

Quando Henrique saiu do banho, encontrou Clara sentada na beira da cama.

— Quem é L.? — ela perguntou, sem rodeios.

Ele parou por um instante. Apenas um segundo — mas foi suficiente.

— Uma colega do trabalho.

— Colega de quê?

— De projeto.

A resposta veio rápida demais.

Clara assentiu lentamente.

— Vocês se falam bastante.

Henrique deu de ombros.

— Coisa de trabalho.

O silêncio que se seguiu não era mais o mesmo de antes. Havia agora uma tensão que não se dissipava, como um fio esticado ao limite.

Nos dias seguintes, Clara passou a observar.

Não confrontava. Não acusava. Apenas reunia fragmentos.

O perfume diferente na camisa. A mudança súbita de humor. A atenção dispersa.

E, ao mesmo tempo, havia momentos em que Henrique parecia exatamente o mesmo de sempre — presente, atento, até carinhoso.

Essa oscilação era o que mais a desestabilizava.

Se houvesse certeza, haveria também uma direção.

Mas a dúvida… a dúvida se espalhava.

Certa noite, ele voltou mais tarde do que o habitual. Disse que o trânsito estava ruim. Clara não respondeu.

Enquanto ele se movia pela casa, tirando os sapatos, largando as chaves, ela o observava como se fosse um estranho que tentava imitar alguém conhecido.

— Você não vai dizer nada? — ele perguntou, por fim.

Clara levantou-se devagar.

— Eu não sei o que dizer — respondeu.

E era verdade.

Porque qualquer acusação exigia uma prova que ela não tinha.

E qualquer absolvição exigia uma confiança que já não possuía.

Na madrugada, Clara acordou com um movimento ao lado.

Henrique não estava na cama.

Levantou-se em silêncio e caminhou até a sala.

A luz do celular iluminava o rosto dele. Ele estava de costas, mas a postura era inequívoca — inclinado, concentrado, como quem fala baixo para não ser ouvido.

Clara não avançou.

Ficou parada no corredor, na fronteira entre ver e não ver.

O coração batia rápido, mas não havia pânico. Havia uma clareza estranha.

Ela poderia dar mais um passo. Poderia ouvir. Poderia, finalmente, saber.

Mas também sabia que o que encontrasse ali — qualquer que fosse — não devolveria o que já havia sido perdido.

Recuou.

Voltou para o quarto.

Deitou-se novamente, olhando o teto escuro.

Quando Henrique retornou, minutos depois, ela manteve os olhos fechados.

Na manhã seguinte, o café foi silencioso.

Henrique tentou iniciar uma conversa trivial. Clara respondeu com a mesma neutralidade que ele usara dias antes.

— Você está estranha — ele disse, por fim.

Clara o encarou.

Por um instante, pensou em perguntar tudo. Em exigir respostas, em expor cada detalhe, cada indício.

Mas as palavras não vieram.

No lugar delas, surgiu uma pergunta diferente — uma que não dependia dele.

— Se eu te perguntasse — começou, com a voz calma — você diria a verdade?

Henrique sustentou o olhar.

— Diria.

Ela assentiu.

Mas não perguntou.

O silêncio que se seguiu não era vazio.

Era uma decisão.

Naquela noite, enquanto arrumava uma mala pequena, Clara percebeu que a dúvida tinha se tornado mais pesada do que qualquer certeza possível.

Não importava mais se houve traição.

O que importava era que ela já não conseguia habitar aquele espaço sem se fragmentar.

Henrique a observava da porta, confuso, inquieto.

— Você vai embora por causa de uma suspeita? — perguntou.

Clara fechou a mala.

Pensou por um instante.

— Não — respondeu. — Eu vou embora por causa da dúvida.

E, pela primeira vez desde que tudo começou, não havia hesitação em sua voz.

A porta se fechou atrás dela com um som seco, definitivo.

Do lado de dentro, Henrique ficou parado, cercado por respostas que talvez nunca precisasse dar.

E do lado de fora, Clara caminhou sem olhar para trás — não porque tivesse certeza, mas porque, finalmente, aceitara que talvez nunca tivesse.

mario moura

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UMA ESTRANHA PERCEPÇÃO

Quando o primeiro livro saiu, disseram que era original.

Quando o segundo veio, disseram que era voz.

No terceiro, já falavam em estilo — algo raro, quase impossível de fabricar.

E foi exatamente aí que Daniel começou a desconfiar.

Não de si mesmo como escritor, mas de si como origem.

A suspeita não surgiu como uma ideia clara. Veio como um ruído — um incômodo leve, quase imperceptível, que se infiltrava enquanto escrevia. Uma sensação de déjà vu, mas não de algo vivido. De algo... captado.

Ele estava acostumado ao processo: sentar, esperar, e então, de algum lugar indefinido, as frases vinham. Não como esforço, mas como recepção. Sempre fora assim.

Mas, com o tempo, aquilo deixou de parecer natural.

Certa noite, escrevendo uma cena crucial de seu novo romance, Daniel parou no meio de um parágrafo. Não por falta de palavras, mas por excesso de familiaridade.

Ele conhecia aquela cena.

Não no sentido de tê-la criado, mas de tê-la reconhecido.

Um homem numa estação vazia, segurando uma carta que nunca seria entregue. A descrição era precisa demais, carregada de uma melancolia que não parecia construída — parecia lembrada.

Daniel fechou o laptop lentamente.

— De onde veio isso? — murmurou.

A pergunta não encontrou resposta.

Nos dias seguintes, começou a reler suas próprias obras com um olhar diferente. Não como autor, mas como investigador.

Buscava padrões.

Repetições.

Fragmentos que pudessem indicar uma fonte externa.

E encontrou.

Personagens que apareciam com variações mínimas em livros diferentes. Situações que ecoavam outras, como se fossem versões de uma mesma história tentando se contar de formas distintas.

Era sutil. Mas persistente.

Como um sinal atravessando frequências.

A ideia, então, tomou forma:

E se ele não estivesse criando?

E se estivesse apenas sintonizando?

A hipótese parecia absurda à primeira vista. Mas, quanto mais pensava, mais coerente se tornava.

O cérebro como receptor. A mente como antena.

E o que ele chamava de imaginação seria, na verdade, uma espécie de escuta.

Uma captação de narrativas dispersas — memórias coletivas, desejos não realizados, histórias que nunca foram escritas, mas que insistiam em existir.

Daniel tentou resistir à ideia.

— É só inspiração — disse a si mesmo. — Todo escritor sente isso.

Mas a explicação não o satisfazia mais.

Porque inspiração não explicava a precisão.

Nem a recorrência.

Nem aquela estranha sensação de que algumas passagens já estavam prontas antes mesmo de ele começar a escrevê-las.

Decidiu testar.

Durante uma semana, não escreveu nada. Evitou qualquer contato com livros, filmes, conversas profundas. Queria silenciar o suposto “sinal”.

Nos primeiros dias, sentiu apenas vazio.

Depois, inquietação.

E então, na quinta noite, aconteceu.

Estava deitado, no escuro, quando uma imagem surgiu — nítida, completa.

Uma mulher caminhando por uma cidade inundada. Não havia pânico, apenas aceitação. Ela carregava uma mala pequena, como se soubesse que não havia mais para onde ir.

Daniel levantou-se imediatamente.

— Não — disse em voz alta.

Mas a imagem não se dissipou.

Pelo contrário — ganhou detalhes. Sons. Cheiros.

Era como assistir a algo que já estava acontecendo em algum outro lugar.

Ele caminhou até o escritório, mas não abriu o laptop.

Ficou parado diante da mesa, respirando fundo.

Se escrevesse, estaria confirmando.

Se não escrevesse, estaria negando algo que claramente existia.

A dúvida se instalou com força total.

Nos dias seguintes, as “captações” se intensificaram.

Cenas surgiam sem aviso. Diálogos completos, com vozes distintas. Histórias que pareciam pedir passagem.

E Daniel, cada vez mais, sentia que não era o autor.

Era o meio.

Essa percepção começou a afetar tudo.

Entrevistas tornaram-se desconfortáveis. Como explicar um processo que ele mesmo já não compreendia? Como reivindicar autoria de algo que talvez não lhe pertencesse?

— De onde vêm suas ideias? — perguntavam.

Ele sorria, evasivo.

— De muitos lugares.

Era a resposta mais honesta que conseguia dar.

Mas, por dentro, a pergunta ecoava com outra intensidade:

De quem são essas histórias?

Certa madrugada, exausto, decidiu confrontar a questão de forma definitiva.

Sentou-se à mesa.

Abriu um documento em branco.

E escreveu:

“Se eu não sou o autor, então quem escreve através de mim?”

A pergunta ficou ali, pulsando na tela.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então, lentamente, as palavras começaram a surgir.

Não como antes — fluidas e naturais —, mas com uma resistência estranha, como se algo precisasse atravessar uma barreira.

“Você já sabe.”

Daniel congelou.

As mãos pairaram sobre o teclado.

O coração acelerou.

Ele não lembrava de ter pensado aquela frase.

Mas ela estava ali.

Continuou.

“Você sempre soube.”

Daniel recuou na cadeira.

O quarto parecia menor.

O ar, mais denso.

— Isso sou eu — disse, tentando se convencer.

Mas a frase seguinte surgiu antes que pudesse formular qualquer pensamento.

“Somos muitos.”

Ele fechou o laptop com força.

O som ecoou no silêncio da casa.

Ficou ali, imóvel, tentando reorganizar a própria percepção.

Era impossível.

Se aquilo era fruto de sua mente, então sua mente era mais vasta — e mais fragmentada — do que imaginava.

Se não era… então a alternativa era ainda mais perturbadora.

Na manhã seguinte, Daniel não abriu o computador.

Nem no dia seguinte.

Nem no outro.

As histórias continuavam vindo.

Mas ele não as registrava mais.

Com o tempo, começaram a se dissipar — como sinais que perdem força quando não encontram receptor.

Meses depois, seu editor ligou.

— Precisamos do novo livro.

Daniel hesitou.

Olhou para o escritório, agora silencioso.

Para a mesa vazia.

Para o laptop fechado.

— Acho que… — começou, mas não terminou.

Porque, naquele instante, uma nova imagem surgiu.

Mais forte do que todas as anteriores.

Um homem sentado diante de uma página em branco, tentando decidir se escreve ou não.

Daniel sentiu um arrepio.

A cena era detalhada demais.

Familiar demais.

Ele entendeu.

Lentamente, caminhou até a mesa.

Abriu o laptop.

E, antes mesmo de começar a digitar, teve a estranha — e inevitável — sensação de que aquela história já estava sendo contada.

Em algum lugar.

Por alguém.

Ou por muitos.

mario moura

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HERESIA

O frade Thomás não escolheu Judas.

Foi Judas quem permaneceu no seu imaginário religioso, após a leitura da eterna traição.

No mosteiro, as leituras seguiam o ciclo das horas, como sempre haviam seguido. Salmos, cartas, evangelhos. As palavras repetidas moldavam o tempo, davam-lhe contorno e ritmo. Thomás conhecia cada passagem como quem reconhece um caminho já percorrido muitas vezes.

Mas, havia meses, algo se desviara.

Toda vez que o nome surgia — Judas —, não era apenas mais um personagem na narrativa sagrada. Havia uma pausa, quase imperceptível, um intervalo que não existia antes. Como se aquela palavra abrisse uma fresta.

No início, Thomás resistiu.

Não por falta de fé, mas por excesso dela. Sabia o lugar de Judas na tradição: o traidor, o que vendeu o Mestre, o que não suportou o peso do próprio ato.

Era simples.

Ou deveria ser.

Mas a simplicidade começou a incomodá-lo.

Certa tarde, durante a leitura solitária no scriptorium, deteve-se em uma frase que sempre lhe parecera secundária: “E Judas saiu, e era noite.”

Thomás repetiu mentalmente.

“Era noite.”

Havia algo ali.

Não uma justificativa — isso ele recusava —, mas uma densidade que nunca havia considerado. Como se aquela noite não fosse apenas externa, mas também interna. Um estado. Uma condição.

Fechou o livro.

Pela primeira vez, não pensou em Judas como função — o traidor necessário —, mas como homem.

E isso complicava tudo.

Nos dias seguintes, passou a buscar as passagens em que Judas aparecia. Lia devagar, quase com cautela, como quem teme alterar algo ao observar com atenção demais.

O que encontrou não foi clareza.

Foi silêncio.

Pouco se dizia sobre ele. Pouco se explicava. E, nesse pouco, cabia quase tudo.

— Por que você faz isso? — perguntou o irmão Mateus, ao perceber a insistência de Thomás.

— Isso o quê?

— Ficar voltando a ele.

Thomás hesitou.

— Não sei — respondeu, por fim. — Talvez porque ninguém mais volte.

Mateus franziu a testa.

— Ele fez o que fez.

— Sim.

— E isso basta.

Thomás assentiu, mas não se convenceu.

Porque, para ele, já não bastava.

Havia uma inquietação que não se dissipava. Não era dúvida sobre a traição — essa permanecia inegável —, mas sobre o modo como ela era compreendida.

E, sobretudo, sobre o lugar que restava para quem falhava.

Numa noite de vigília, enquanto os outros dormiam, Thomás permaneceu na capela. A chama das velas oscilava suavemente, projetando sombras que pareciam se mover por vontade própria.

Ele se ajoelhou.

— Senhor — disse em voz baixa —, não quero justificar o erro.

A frase ficou suspensa.

— Mas também não consigo aceitar que um homem seja apenas o seu pior momento.

O silêncio respondeu.

Ou talvez não tenha respondido.

Thomás fechou os olhos.

E, pela primeira vez, imaginou Judas não no ato da traição, mas depois. No intervalo entre o gesto e a consciência plena do que havia feito.

A percepção.

O peso.

A impossibilidade de voltar atrás.

Sentiu um aperto no peito.

Porque reconheceu algo.

Não a escala, não o evento — mas a estrutura.

A falha humana.

A decisão tomada no escuro.

O arrependimento que chega tarde demais.

Abriu os olhos rapidamente, como se tivesse ido longe demais.

— Não — murmurou. — Não é a mesma coisa.

Mas a distinção já não era tão nítida.

Nos dias que se seguiram, sua oração mudou.

Menos segura.  Mais interrogativa.

E, sem perceber, começou a incluir Judas — não como exemplo do que evitar, mas como presença a ser compreendida.

Isso o assustava.

Não pelo que Judas representava, mas pelo que essa aproximação revelava sobre si mesmo.

Certa manhã, o abade o chamou.

— Tenho ouvido coisas — disse, com voz serena.

Thomás abaixou a cabeça.

— Não estou negando nada, padre.

— Eu sei.

O abade caminhou lentamente pelo pequeno aposento.

— Mas você está se aproximando de um terreno delicado.

— Eu sei.

— E por quê?

Thomás demorou a responder.

— Porque… — começou, mas parou.

Como explicar algo que ainda não estava totalmente claro nem para si?

— Porque, se não houver lugar para ele — continuou, finalmente —, não sei se há lugar para nós.

O abade o observou longamente.

Não havia reprovação em seu olhar.

Mas havia preocupação.

— Há coisas que não nos cabe resolver — disse.

Thomás assentiu.

— Talvez.

Saiu dali sem alívio.

Naquela noite, voltou à capela.  Não levou livro.

Não levou palavras prontas.

Sentou-se no banco de madeira e permaneceu em silêncio.

Pensou em Judas.

Pensou no beijo.

Pensou na escolha.

E pensou, sobretudo, no que vinha depois.

O arrependimento.

O desespero.  A figueira... Ou a olaia, conhecida popularmente como "árvore- de-judas". Finalmente o fim. O enforcamento.

O fim. A maldição eterna...

Mas, dessa vez, não tentou concluir.  Não tentou decidir se estava certo ou errado.

Permaneceu na dúvida.

E, pela primeira vez, percebeu que a dúvida não era ausência de fé. Muito ao contrário, era uma forma mais exigente dela.

Ao sair da capela, o céu começava a clarear.

Não era mais noite.

Mas também ainda não era dia. Os primeiros cantos de pássaros dispersos despertavam a madrugada.

Thomás parou por um instante, olhando o horizonte, iniciando o tom de cores que se misturavam numa paisagem de múltiplos desenhos indefinidos. Um lugar mágico, que ocultava um silêncio que o ser humano desconhecia.

E compreendeu que talvez Judas habitasse exatamente ali — nesse intervalo incômodo entre a condenação e a compreensão  de um mistério que não se subordinava à razão. Misturava-se a face oculta do sacrifício de Jesus.

Um lugar onde nenhuma resposta era definitiva.

E onde, ainda assim, era preciso permanecer.

mario moura

Mais de 55 anos? Troque todo o seu Treino por estes 3 exercícios para Força Absurda!

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