segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DESCOBRI ALGO DESCONFORTÁVEL SOBRE MIM MESMO

 Descobri algo desconfortável sobre mim mesmo

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09:43 (há 1 hora)
para mim
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Descobri algo desconfortável sobre mim mesmo, ou melhor, algo que passa por mim, mas que não é só meu.

Parte disso eu vivi na pele.

Parte eu reconheci observando.

E parte eu escrevo porque suspeito que não estou sozinho nisso.

Sim, descobri algo desconfortável sobre mim. E é isto:

As pessoas que me conhecem mais intimamente, que me viram no meu pior e, mesmo assim, escolheram ficar, são exatamente aquelas que eu trato com menos “cerimônia”.

Meus filhos entram no quarto e se tornam invisíveis.

Não porque eu não os ame, mas porque a presença deles se tornou tão comum quanto a minha própria respiração.

Mas basta um estranho aparecer, e eu viro outra pessoa.

Mais atento. Mais presente. Mais generoso com o meu tempo e com o meu sorriso.

Esta é a matemática do meu coração: quanto mais seguro o vínculo, menos eu cuido dele.

Eu me desdobro por quem ainda carrega a possibilidade de me deixar.

Dedico minha paciência, minha gentileza, minha atenção inteira a pessoas cuja opinião sobre mim ainda está em aberto.

Mas a minha família?

Eles já formaram a opinião deles.

Eles me escolheram de um jeito definitivo e, por isso, sem perceber, eu os rebaixo à condição do que está sempre ali: essenciais, amados até, mas despercebidos na coreografia diária da minha vida.

Os exemplos estão por toda parte.

Depois que comecei a enxergar, ficou impossível não perceber.

Alguém me manda uma mensagem e eu respondo em menos de uma hora.

Com cuidado. Por inteiro. Ponderado.

Minha esposa me manda uma mensagem e ela fica horas sem ser lida.

Porque “pode esperar”.

Um estranho me faz uma pergunta e eu paro tudo.

Olho nos olhos.

Entrego foco total, junto com um sorriso largo e atencioso.

Mas minha esposa tenta me contar sobre o dia dela, e eu escuto pela metade.

Olhos no celular.

Soltando “aham” distraídos.

Até que ela diminui a voz e, pouco a pouco, para de falar.

Quando alguém visita minha casa, eu sou o anfitrião perfeito.

Ofereço meus melhores vinhos. Faço perguntas. Dou risada das histórias.

Faço questão de que a pessoa se sinta acolhida e valorizada.

Mas, numa segunda-feira qualquer, meus filhos almoçam enquanto eu rolo a tela do celular, presente de corpo e ausente em todas as outras partes de mim que realmente importam.

Um estranho comete um erro e eu sou compreensivo. Paciente. Gentil.

Minha esposa esquece alguma coisa e eu solto um suspiro.

Faço um comentário com “sempre” ou “nunca”.

Eu atravesso o país para contribuir com o crescimento profissional de alguém, sem reclamar.

Mas, quando meus filhos precisam brincar com o pai, eu respondo: “talvez mais tarde”.

Esse “mais tarde” nunca acontece.

Lembro de aniversários e datas importantes de outras pessoas.

Mando mensagens bem pensadas.

Faço questão de que se sintam vistas.

Enquanto isso, no passado, só me dei conta de uma data importante nossa quando minha esposa precisou me lembrar.

E a pior parte?

O tom.

Uso com a minha família um tom que jamais usaria com estranhos.

Cortante. Impaciente. Desdenhoso.

Um estranho me interrompe e eu sou cordial.

Minha esposa me interrompe e eu respondo atravessado.

Alguém no restaurante erra meu pedido e eu entendo. Sou gentil, até.

Meus filhos derrubam alguma coisa na mesa do jantar e eu fico irritado.

“Incomodado.”

“Eles vivem fazendo sujeira.”

Peço desculpas a estranhos por incômodos mínimos.

Digo “com licença”.

Digo “obrigado” quando alguém segura a porta.

Mas com que frequência digo essas palavras em casa?

Com que frequência peço desculpas à minha esposa quando estou errado?

Com que frequência agradeço aos meus filhos pelas centenas de pequenas coisas que fazem?

O estranho ganha minha cortesia.

Minha família ganha a suposição de que vai entender.

De que vai perdoar.

De que não precisa do respeito básico que ofereço a pessoas cujo nome eu nem sei.

É uma tragédia injusta.

Injustíssima.

A tragédia não é só que eles recebem o pior de mim.

É que eles aceitam.

Eles me amam através da minha autodestruição, da minha impaciência, da minha ausência, mesmo quando estou bem ali, de pé, na frente deles.

Aceitaram receber sobras enquanto estranhos se banqueteiam com a melhor versão de mim.

E, de um jeito torto, o perdão deles sustenta a minha negligência.

O amor incondicional vira exatamente o motivo pelo qual eu me autorizo a dar a eles uma atenção condicional.

A venda caiu no ano passado.

E eu não consigo colocá-la de volta.

Desde então, cada pessoa que encontro me faz pensar:

será que continuaria pensando tão bem de mim se soubesse que hoje passei duas horas rolando o Instagram, fingindo trabalhar, em vez de amar minha família, ou ao menos entrar no quarto dos meus filhos para ver como estão?

Haveria admiração se vissem o abismo entre o homem que eu exibo e o homem com quem a minha família vive?

E piora.

Depois que vi isso em mim, comecei a ver em todo lugar.

Será que os outros também são assim?

Tão gentis entre si?

Ou guardam o calor humano para o consumo público, enquanto as horas privadas se enchem de implicâncias, reclamações e brigas?

Pergunto-me quantas pessoas andam por aí de máscara, exibindo o melhor para uma plateia, enquanto suas famílias esperam nos bastidores, torcendo para que sejam lembradas entre um “ato” e outro.

Talvez seja só eu.

Essa consciência é uma maldição e uma bênção.

A maldição é óbvia: carregar o peso de saber há quanto tempo venho errando nisso, e não conseguir parar de suspeitar da performance nos outros também.

A bênção é enxergar, finalmente, a verdade de como venho gastando a minha vida.

A conta é simples, mas devastadora: se coloco minha melhor energia em impressionar quem não me conhece de verdade, quem me conhece fica com o que sobra.

Minha família não recebe um amor reduzido.

Recebe meu cansaço.

Minha distração.

Minha irritação.

Recebe a versão de mim que já não sente que precisa evoluir.

Este é o terror de acordar para mim mesmo: perceber que meus hábitos inconscientes vêm escrevendo uma história que eu nunca escolhi conscientemente.

Que minha atenção, meu calor humano, meu melhor eu foram para quem menos importa, enquanto quem mais importa viveu das minhas migalhas.

Eu não consigo mais desver isso.

Meus filhos entram no quarto e noto o instante em que quase não levanto os olhos.

Minha esposa fala e eu reconheço aquele tom que nunca usaria com um estranho.

A própria consciência é exaustiva, essa vigilância constante contra o automático.

Mas o que mais me assombra é o desconhecido.

Se pude deixar passar algo tão fundamental, tão constante, de que mais sou cego?

De que outras maneiras falho com quem amo, de um jeito tão natural que nem percebo?

É como aquela pessoa que todo mundo sabe que tem mau hálito, menos ela.

Eu sou essa pessoa.

E agora não consigo mais confiar nem na minha própria higiene.

Mas, pelo menos por enquanto, sobre isto, eu sei.

A parte mais triste seria perceber e não mudar nada.

Minha família me amou no meu pior.

Viu-me entregar a estranhos a versão de mim que sempre desejou receber.

Aceitou migalhas enquanto eu servia banquetes aos outros.

Agora, porém, eu me flagro no meio do erro.

E corrijo a rota.

No meio do descuido, paro e devolvo minha atenção aos meus filhos.

No meio do suspiro, suavizo o rosto e lembro: esta é a minha esposa, não a minha adversária.

Pratico dizer “com licença” e “obrigado” em casa.

Largo o celular durante o jantar.

Levanto os olhos quando eles entram no quarto.

Mas velhos hábitos têm raízes profundas, e o esforço parece não ter fim.

Todos os dias ainda me flagro, me interrompo e luto contra décadas de automatismos que me ensinaram a agir como se minha família devesse se sentir grata por mim, quando, na verdade, sou eu quem deveria me ajoelhar em gratidão.

E estou cansado disso.

Cansado de viver com a consciência dividida: uma no piloto automático, outra policiando.

A parte mais triste não é ter percebido isso tarde.

É me perguntar se um dia vai ficar mais fácil.

Se, algum dia, darei naturalmente à minha família a mesma atenção que ainda dou automaticamente a estranhos.

Se essa vigilância vai virar presença sem esforço.

Se deixarei de precisar me lembrar, conscientemente, de tratar quem mais amo como quem realmente mais importa.

E eles continuam aqui.

Vendo-me tentar.

De verdade.

Ainda assim, esperam.

E, ao contrário dos estranhos, não vão embora.

As perguntas que não me deixam dormir são estas:

Estar presente para eles vai um dia parecer tão natural quanto atuar para estranhos?

Eles percebem o que está acontecendo?

Estou criando neles uma versão de mim que não quero que exista?

Devo desviar o olhar, acomodar-me na hipocrisia e continuar a performance?

Ou passo o resto da vida como um limpador de para-brisa sob chuva pesada, esperando atravessar a tempestade para, enfim, desligá-lo?

Eu sei a resposta.

Eles merecem algo melhor do que o meu automatismo.

Sempre mereceram.

Hoje, alguém se sente menos sozinho por causa da sua bondade.

Alguém se sente visto e ouvido por causa da sua gentileza.

Alguém se lembra das suas palavras nos dias mais difíceis.

Alguém continua correndo atrás dos seus sonhos porque você mostrou que era possível.

Alguém se sente feliz só de pensar em você.

Alguém ainda procura por você em cada pessoa que conhece.

Você ocupa um lugar essencial na vida de alguém, mesmo sem jamais saber disso.

Mas não se esqueça: quem mais precisa de você é a família que você construiu. Eles são sua base, sua origem, e devem ser sempre a prioridade da sua vida.

Vou continuar praticando tratar a minha família com a mesma atenção cuidadosa que eu daria a alguém que estou tentando impressionar.

O que é absurdo, porque eles são as únicas pessoas que realmente valem a pena impressionar.

Para minha esposa, Ana Lídia, e meus filhos, Benício e Thomas,

para quem nenhuma versão de mim deveria ser rascunho;

a quem devo não apenas amor, mas presença inteira;

que sempre foram o destino, nunca o intervalo;

e diante de quem nenhuma distração é desculpa, nenhuma ausência é aceitável.

Amo vocês.

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